Importante
sempre termos uma opinião de um sociólogo que visa estudar a nossa
sociedade e entende-la de fato o que está acontecendo.
Refúgio da Mente fez uma pequena entrevista com o sociólogo Edir Jesus.
1. Por que ainda existem tanto preconceito e "discriminação" em relação à comunidade LGBT?
Existem
diversas formas de preconceito, que podem ser raciais, sociais ou
sexuais. No caso da comunidade LGBT, o preconceito tem origem no
machismo. O machismo é típico da sociedade patriarcal. No campo da
sexualidade, a norma que se impõe é a da superioridade dos homens em
relação às mulheres. No próprio interior do movimento LGBT isso pode ser
notado. É interessante notar que, em 2008, a decisão de se colocar a
letra L à frente do G resultou de um polêmico debate, e a Conferência
Nacional GLBT decidiu pela mudança como forma de dar maior visibilidade
às lésbicas (mulheres). De qualquer modo, a aversão, a intolerância e as
agressões ao movimento LGBT estão associadas à nossa cultura
patriarcal.
2. O que a sociedade pode fazer para lutar contra esse preconceito?
É
preciso haver uma mudança cultural. Isto já está ocorrendo em várias
frentes. Exemplo disso são os movimentos sociais. Historicamente, os
finais dos anos 70 representaram um marco inicial desse processo. O
movimento que antes se denominava homossexual se tornou hoje o LGBT.
Surgiram novos grupos organizados e também outras formas de luta. E elas
não foram em vão. Direitos foram reconhecidos e políticas públicas
foram instituídas como mecanismos de combate à discriminação. As redes
sociais e as tecnologias de comunicação contribuíram muito nesse
processo, possibilitando também a atuação de novos ativismos. Em que
pese todos os avanços até o momento, dados estatísticos revelam que, no
Brasil, a violência física e psicológica contra LGBTs ainda
é alarmante. Em 2017, foram assassinadas cerca de 500 pessoas LGBT em
decorrência de crimes de ódio. Apesar das reações conservadoras,
observa-se inúmeras conquistas por conta da implementação de políticas
em diversos níveis de governo. O exemplo mais recente é o reconhecimento
(jurídico) do direito à identidade de gênero das pessoas trans.
3. Como acha que a sociedade tem lidado com a diversidade sexual?
A
sociedade tem muita dificuldade em lidar com as transformações
recentes, principalmente em relação às novas configurações sociais
relacionadas à afetividade. O que mais desperta curiosidade das pessoas
diz respeito às origens das orientações sexuais e identidades de gênero
dissidentes. Teria o desejo sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo
um fundamento biológico ou cultural? Estaria ele relacionado à educação
na primeira infância? São questões cujas respostas não são únicas nem
definitivas. Outra questão se refere às expressões “orientação sexual” e
“opção sexual”. Alguns entendem, por exemplo, que a primeira expressão
seria a mais adequada, posto que a questão sexual é uma condição e não
uma escolha. No terreno das subjetividades, temos muito ainda o que aprender.
4. A orientação sexual é socialmente determinada?
Nem
sim, nem não. A maioria das pessoas considera que a orientação sexual
depende da educação, do ambiente social. Para a sociologia, o processo
de socialização é determinante no modo como os indivíduos definem suas
relações e interações sociais. Todavia, há evidências científicas de que
o fator biológico tem um papel importante na orientação sexual. Estudos
recentes no campo da psicologia, demonstram que a orientação sexual
resulta de uma interinfluência biológica e cultural. Ou seja, a
orientação sexual não seria resultante nem de fatores biológicos nem de
fatores culturais, mas de diferentes interações entre esses elementos.
Para a neurociência, a orientação sexual é inata, determinada
biologicamente e antes mesmo do nascimento.
5. Você como sociólogo, como enxerga o Movimento LGBT, qual é a sua importância dentro da sociedade?
LGBT
é um movimento social composto por ativistas que representam os
homossexuais. É um movimento que defende a humanização e valorização de
uma população vítima do preconceito. Sua importância reside no fato de
que, no percurso de sua formação, incorporou demandas e reivindicações
que coincidem com as aspirações de uma sociedade mais justa e
democrática. O debate em torno da homofobia nas escolas, da travestilidade
e do bullying homofóbico é um exemplo de sua importância. Além do
aspecto cultural, de mudança na forma de como as pessoas se relacionam e
se respeitam, é importante também destacar a grande produção acadêmica
sobre a sexualidade. É interessante notar que, apesar da crise dos
movimentos sociais, o movimento LGBT ganhou visibilidade e aglutinou
outros movimentos, como, por exemplo, aqueles ligados à defesa dos
direitos humanos, a de luta contra a AIDS e a de defesa das “minorias”, especialmente a feminista.
6. Acredita que é possível minimizar o preconceito que existe na sociedade? De que forma?
Sim.
Sem dúvida! A sociedade já foi mais excludente. Preconceito se aprende.
Ninguém nasce preconceituoso. Como disse acima, somos criados num
regime societário do tipo patriarcal, cujo modelo de organização das
relações socais é pautado pela dominação masculina. Uma das formas de
minimizar o preconceito é criar novas formas de sociabilidade humana
voltadas para o reconhecimento do outro como um igual em direitos. Na
prática, cabe à escola, durante a formação dos indivíduos na primeira
infância, conduzir esse processo. A base do preconceito está na
formação, no processo de socialização. Os meios de comunicação, as
instituições públicas e os movimentos sociais também têm papel
fundamental na construção de uma nova mentalidade. De alguma forma, isso
já está acontecendo, mas temos muito caminho pela frente.
Espero que essa entrevista possa abrir tua mente de conhecimento e aprendizado em relação a comunidade LGBT dentro de nossa sociedade.



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